quinta-feira, dezembro 08, 2016

O CASTELO E AS MURALHAS DA TERRA ALBICASTRENSE – (VIII - Ultimo)

ACHEGAS PARA UMA MONOGRAFIA REGIONAL
“CASTELO BRANCO E O SEU ALFOZ”
(J. RIBEIRO CARDOSO)
 (Continuação)
O monte onde o Castelo se levanta é natural miradouro da velha urbe e da cidade nova que transbordou para fora das muralhas em alegre casario.
A cidade velha tinha um fáceis específico a imprimir-lhe carácter de agrupamento populacional ordenado em unidade militar.
Pedro Alvito, o do foral, taxou o mínimo de haveres para a incorporação obrigatória dos habitantes de Castelo Branco no corpo de cavalaria municipal.

Lá está no foral: “O proprietário de bens rústicos possuidor de uma junta de bois, dez avelhas e 1 burro, é obrigado a comprar cavalos para servir na cavalaria do concelho”.

Temos o palpite de que a cópia do foral hoje existente, está errada no número das ovelhas exigido para os habitantes de Moncarche serem compelidos a entrar na cavalaria municipal, mas seja como for, a grande maioria estava arregimentada, como ainda hoje se pode fazer certo pelo casario, que se alinha nas ruas estreitas que vão das muralhas à alcáçova, no mesmo ritmo de construção, porta larga para a arrumação do cavalo na loja, e porta estreita para serventia do andar onde se alojavam o cavaleiro e sua família.
Quando o apelido anunciava que o inimigo pisava terra do concelho, ou chegara a hora da arrancada para o fossado, a cavalaria do Moncarche saia dos seus quarteis e ia formar no adro de Santa Maria, alinhando sob o comando de um freire do templo que a ensinara a ser impetuosa no ataque e testaruda no designo de vencer.
 
No século XIII o cerco das muralhas abrangia umas jeiras de terra fugida à urbanização, e só mais tarde nela incorporada, conforme se deduz da toponímia citadina que guarda lembranças da rua dos Chões.
Praça da Palha, ruas dos Lagares e outros. A vida económica do concelho pulsava mesmo na encosta do Castelo, como faz certo a rua do Mercado, que devia em tempos mais recuados acudir pelo chamadouro de rua dos Açougues, onde os homens de fora pagavam a portagem pelas suas transações comerciais:
Compra e venda de panos e animalejos do burro ao cavalo, com passagem pelo mouro forro”, fora o resto, como está no foral.
 O mercado com o tempo deslocou-se para o centro da cidade velha, praça hoje de Luís de Camões, com os seus prolongamentos naturais, rua dos Ferreiros a entestar com a porta da Vila.
 A tendência porém, era fugir para fora de portas, na peugada dos cavaleiros vilãos, já burgueses enriquecidos, que á formigas vieram agrupar-se em volta da igreja de São Miguel, que se tornou freguesia independente de Santa Maria.
 Adentro das muralhas ficaram somente os peões agarrados á concha da sua miséria. O mercado acabou por vir no encalço dos cavaleiros para fora de portas, ali para o largo da Devesa, onde aguarda oportunidade para se mudar para melhor sitio, em ordem a satisfazer as necessidades de uma população  em vias de constante crescimento.

PS. Com este poste, termina a publicação do excelente trabalho de J. Ribeiro Cardoso sobre o castelo e as muralhas da cidade de Castelo Branco. 
O Albicastrense

domingo, dezembro 04, 2016

O CASTELO E AS MURALHAS DA TERRA ALBICASTRENSE – (VII)

ACHEGAS PARA UMA MONOGRAFIA REGIONAL
“CASTELO BRANCO E O SEU ALFOZ”
(J. RIBEIRO CARDOSO)
 (Continuação)
Veio de Lisboa alçada de desembargadores a inquirir da proeza e condenou Manuel da Fonseca a ser degolado em estátua, o que lhe não doeu nada, e a pagar 10 cruzados á família de Dom Fernando de Meneses e 4 mil às famílias de dois criados dele, que perderam a vida na bulha porca das duas famílias desvairadas.
Manuel da Fonseca foi mais tarde indultado por Dom João IV, com restituição das suas honrarias, mas proibido de viver em castelo Branco e em 7 léguas em redor.
Fixou residência em Oledo onde tinha casa de avultados haveres. O castelo em si também não tem história nem lenda a memorar feitos de valentia. Na guerra da sucessão, em 22 de Maio de 1704, um corpo de exército franco-castelhano cerou a vila, que logo no dia seguinte se rendeu. O invasor manteve-se na vila pelo espaço de 40 dias, onde fez graves desacatos.
Dentro da Alcáçova estava o Palácio dos Comendadores. Não sabemos notícias dele, senão a que nos dá o Doutor Manuel Tavares Falcão no Tombo que organizou dos bens da Casa do Infantado, em 16 de Outubro de 1753 e que reza assim:

O PALÁCIO DOS COMENDADORES 
DE SANTA MARIA DO CASTELO DA VILA DE CASTELO BRANCO 

Medição e descrição do palácio dos comendadores de Santa Maria do Castelo da vila de Castelo Branco. Está o dito palácio fundado dentro do castelo da dita vila sobre um monte em cujas faldas, para a parte nascente, está situada a vila de castelo Branco.
Entrando pela porta principal da muralha do dito castelo, fica à mão direita junto da capela-mor da igreja de Santa Maria a porta principal do palácio, que é de pedra de cantaria, e as suas portas de madeira chapeadas de ferro, tem a dita porta de altura 3 varas, e de largura 2 e meia, e à entrada desta está um pátio que tem de comprimento 25 varas e 4 palmos, e de largo 15 varas e 4 palmos; à mão direita da entrada do dito pátio está um quarto com balcão para onde se sobe por uma escada de pedra, de 12 degraus, e tem o dito quarto duas portas em cima do dito balção, duas janelas na sua parede que caiem sobre o pátio; e para a parte da vila tem viradas 3 janelas; era o dito quarto uma sala grande, e se acha ao presente dividida em 4 quartos, dois são de telha vãn, e os outros forrados de madeira.
Há debaixo do dito balcão um arco de pedra por onde se entra para a loja que serve de cavalariça, e tem todo o dito quarto de comprimento 18 varas e 2 palmos, e de largo 6 varas e 1 palmo.
Há no dito pátio um jardim cercado de pedra de cantaria de almofadas, que tem de largo 7 varas e 4 palmos, e de comprimento 9 varas e meia; tem algumas árvores de espinho, e à roda seus jasmineiros. Fica o dito jardim debaixo da galeria que o dito palácio tem sobre o dito pátio, que consta de 4 janelas rasgadas.
À parte esquerda da entrada do dito pátio está uma cisterna com suas guardas de pedra de cantaria, e por esta mesma parte cerca o dito pátio uma parede em que está uma porta que vai para uma cerca detrás da igreja de Santa Maria, que tem de circunferência 152 varas e 4 palmos, e fica toda tapada com a parede da dita igreja pela parte por onde se entrava para a tribuna que os comendadores tinham na mesma, e com a muralha. Dentro da dita cerca estão umas casas térreas, que serviam antigamente de armazém para o tesouro e munições de guerra: estão ao presente quase arruinadas, tem duas portas para a cerca, e de comprimento 19 varas e 4 palmos, e de largo 4 varas.
Por cima da porta da cerca há um patim de cantaria, do qual se sob para a escada principal da pátio, que tem 26 degraus de pedra; e no cimo da dita escada está outro patim coberto de forro de madeira, sustenta-se sobre 3 colunas. Na entrada há uma porta de 9 palmos de alto e 7 de largo por onde se entra para um recebimento lajeado de pedra sobre a abobada, que antigamente era descoberto, e consta que servia de cisterna, que tem 4 varas de comprido e 3 de largo, no qual estão duas portas, e se desce pela da esquerda por uma escada de pau para uma casa térrea em  que está uma chaminé e um forno; e pela outra porta se entra para a sala da espera do palácio, que tem duas janelas, uma de assentos e outra rasgada viradas para o nascente, e uma chaminé, tendo de comprimento 10 varas, e 5 de largo.
Há nesta sala mais três portas, por uma das quais se entra para um quarto que tem uma janela rasgada sobre o pátio; e deste quarto há uma porta para outro que tem uma janela rasgada, e por ali se entra por uma porta para um outro quarto com sua janela, e tem este 5 varas de comprimento, e 3 e 2 palmos de largo.
Pela porta que está no canto da dita sala de espera, se entra para uma outra sala com sua janela para o norte, tendo de comprimento 6 varas e meia, e 5 e 4 palmos de largo. Tem esta duas portas, uma à direita, que dá entrada para o ultimo quarto, e outra para a ultima sala com duas janelas, uma para o norte e outra para o nascente, e uma chaminé, tendo 8 varas e meia de comprimento e 5 de largo; e havendo ainda outra porta por onde se entra para um quarto ladrilhado de tijolo, que tem 5 varas de comprido e outras 5 de largo.
Há no dito quarto três portas que dão entrada, uma para a cozinha, que tem 6 varas de comprimento é 5 de largo, outra que dá saída para a varanda do palácio, da parte do nascente, que é ladrilhada de tijolo com sua guarda de parede pela dianteira, e pelos lados tem seus alegretes para flores, tendo de comprimento 14 varas e 4 palmos, e de largo 4 ditas.
Estão os três quartos de que se fez menção formados sobre três arcos de pedra, que estão ao presente tapados, á exceção de um, pelo qual se entra ficando á mão esquerda um portado que dá entrada para uma casa que fica debaixo do primeiro recebimento do palácio que é de abobada. Defronte do dito arco está um portado de cantaria lavrada, grande e magnífico, por onde se entra para uma sala que fica debaixo da de espera, que é toda ladrilhada, e no meio tem um florão de azulejo, tendo de comprido 10 varas e 2 palmos, e de largo quatro varas e dois palmos; e nesta sala está uma porta para o norte, por onde se sai para um passeio ladrilhado de pedra miúda e cercada de parede com seus alegretes de roda, pelo que mostra que foi jardim, o qual tem de comprido 12 varas e de largo 5.
No cimo da dita sala à direita da sua entrada está outra porta por onde se entra para uma loja, que serve ao presente de tulha; e defronte da casa de abobada há outra porta por baixo de um arco por onde se entra para a tulha do azeite.
As paredes do palácio são todas mais altas do que os seus telhados, e todas cercadas de ameias que forma a perspectiva da torre da muralha.
Na forma referida é, que está o sobre-dito palácio, e todo está suficientemente reparado sem ameaçar em parte alguma ruína”.

Desta famoso Palácio nada existe hoje a lembrar a sua existência, a não ser a prosa do Juiz do Tombo.
(Continua)
O Albicastrense

quarta-feira, novembro 30, 2016

O CASTELO E AS MURALHAS DA TERRA ALBICASTRENSE – (VI)

ACHEGAS PARA UMA MONOGRAFIA REGIONAL
“CASTELO BRANCO E O SEU ALFOZ”
(J. RIBEIRO CARDOSO)
 (Continuação)
A propósito do duplo centenário acorrido em 1949 o governo do Estado Novo iniciou lição de alta cultura com o reconhecimento dos velhos castelos, pilares da Nacionalidade.
O restauro do nosso ainda entrou na forja, mas faltou-lhe homem de fôlego para assoprar a brasa capaz de dar calor á obra ainda mal começada.
O restauro não se fez, nem ao menos se concluiu a velha torre, a que caiu do cansaço, que aí ficou a gritar-nos qualificativos, que em alguns assentam à maravilha.
As muralhas tinham primitivamente 7 portas, a saber:

1ª) Porta da Vila
Dava entrada para a rua dos Ferreiros aos caminhos que convergiam ao Largo de São João.
2ª) Porta de Santiago.
Ao norte, na encosta do castelo. 
Dava entrada pela calçada da Alegria aos caminhos que vinham de Cafede e São Vicente da Beira. O nome vinha-lhe de uma capela do Apóstolo que estava junto à ponte da Alcreza, no caminho que vem de Cafede para Castelo Branco.
3ª) Porta do Esteval. 
Não se identifica com exatidão, mas ficava na encosta do castelo, entre as portas de Santiago e da Traição. Ainda existente, em frente de São Gens.
4ª) Porta da Traição. 
Ainda existente, em frente de São Gens.
5ª) Porta de Santarém. 
A poente, em frente da igreja de Santa Maria. Dava entrada aos caminhos vindos de Sarzedas.
6ª) Porta do Ouro. 
Não se conhece a razão do qualificativo. Estava perto da torre de Santa Maria e em frente da Capela de São Brás.
7ª) Porta do Espírito Santo.
Dava entrada para a rua de Santa Maria aos caminhos que vinham da Açafa e do norte Alentejano.

A necessidade premente de dar fuga para fora das muralhas a uma população em ritmo acelerado de crescimento, obrigou à abertura de mais três portas, que ficaram assim chamadas.

1ª) Porta do Postiguinho de Valadares. 
Dava saída à Rua dos Peleteiros para o largo da igreja de São Miguel. 
2ª) Porta do Relógio. 
Dava saída à praça, hoje chamada de Camões, para a rua hoje chamada do Dr. Morão.
3ª) Porta do Postigo
Dava saída à Rua do Poço das Covas para a Devesa.

Nenhuma destas portas tem cronica merecedora de reparo, a não ser aquela da Traição por onde furtivamente entrou Manuel da Fonseca Coutinho, alcaide de Idanha, com a sua criadagem armada, e assassinou Dom Fernando de Meneses, alcaide de castelo Branco.
(Continua)
O Albicastrense 

sábado, novembro 26, 2016

O CASTELO E AS MURALHAS DA TERRA ALBICASTRENSE – (V)

 ACHEGAS PARA UMA MONOGRAFIA REGIONAL
“CASTELO BRANCO E O SEU ALFOZ”
(J. RIBEIRO CARDOSO)
(Continuação)
(1) O castelo e muralhas são obras dos templários. Naquele instrumento de 1230 que julgou o conflito sangrento havido entre o Concelho de Covilhã e a Ordem do Templo com o Concelho de Castelo Branco à mistura, lá está exarado a nota – “Et comendator Casteli blanchi accepiat vexillum (Covillham) et exaltel illud in sumitate castri Castelli blanchi”, o que significa que já no tempo de Dom Sancho I a alcáçova era realidade, e no alto de uma das suas torres foi arvorado o estandarte da Covilhã. ~

Em 1510, já em plena crise que levou a Ordem do Templo para a extinção, discutia-se a propriedade dos bens da Ordem, e Dom Dinis prestou-se á comédia diplomática preparatória da reversão dos bens para a coroa, se o Pontífice persistisse na teima de não atender á súplica do Rei de Portugal.
 A bula de 14 de Março de 1319 instituiu a Ordem de Cristo, como era desejo de Dom Dinis e para essa Ordem passaram todos os bens dos Templários.
 Assim a vila de Castelo Branco, passou diretamente dos Templários para a Orem de Cristo, e, por isso, não é crível que Dom Dinis se quisesse substituir às Ordens do Templo ou de Cristo na feitura do Castelo e muralhas, quando estas Ordens eram ricas para se abalançarem às despesas da fortificação de Castelo Branco sem necessidades do auxílio erário real.
 Uma das torres do castelo que conseguira escapar à sanha dos homens e à ação mordente do tempo, deixou-se chapar naturalmente, com muito barulho e alguma poeira em 3 de Março de 1936.
Felizmente a geração que vinha de 1821, simbolizada no tal capitão da tropa, mais no Presidente da Câmara e no Perfeito da Província daquele tempo, era forçada a cozer em quietação a bebedeira da liberdade, por imperativo de uma nova geração que parecia querer afirmar-se em ânsias de amor á terra, bêbido em lições de um passado glorioso.
 A velha torre que imprimira carácter ão burgo de Pedro Alvito estava ali prostrada, desarticulados os elementos que a haviam feito gigante.
Acorreu à cidade a ver os destroços mas a ninguém passou pela mente utilizar os seus materiais, antes se palpava a resolução coletiva de fazer ajeitar de novo aquelas pedras sagradas pela ação do tempo, refazendo a forma e figura da velha torre, nas linhas fortes da sua elegância castrense.
(Continua)
O Albicastrense

terça-feira, novembro 22, 2016

O CASTELO E AS MURALHAS DA TERRA ALBICASTRENSE – (IV)

ACHEGAS PARA UMA MONOGRAFIA REGIONAL
“CASTELO BRANCO E O SEU ALFOZ”
(J. RIBEIRO CARDOSO)
 (Continuação)
E segundo a lição de Rui de Pina, em terras da beira nada mais fez o nosso Dom Dinis, e vamos lá que já não fez pouco.
A fantasia de o castelo e muralhas da vila de Castelo Branco serem dionisianas, foi modernamente perfilhada pelo senhor General João de Almeida, que prestou o inestimável serviço de editar o livro das fortalezas de Duarte Darmas, e nele, da sua lavra, pôs a seguinte nota:
 “Em 1286 El-Rei Dom Dinis, ou porque os Templários não tivessem levantado as fortificações que Dom Afonso II lhes impusera na doação, ou porque não satisfizessem a uma defesa eficaz, mandou fazer outro Castelo, com sua torre de menagem de sete quinas e cercou a povoação de uma grossa e alta muralha”.
São desse tempo as fortificações desenhadas por Duarte Darmas. É bem certo que quem conta um conto sempre lhe acrescente um ponto, e não quis o senhor General João de Almeida desmentir o aforismo, e por isso atribuiu a Dom Dinis não só a feitura das muralhas, mas também a do Castelo, com a sua torre de menagem de sete quinas.
Seja lá como for, o que não está certo com certeza, é que Dom Afonso II, na doação da Herdade de Cardosa, houvesse imposto aos templários a obrigação de fortificarem Castelo Branco do Moncarchino, como o leitor pode verificar no texto da doação que publicamos integralmente.
Os desenhos de Duarte Damas são preciosos para se aquilatar da grandeza do Castelo. 
Em 1753 fez-se o Tombo da Comenda e o castelo e as muralhas ainda se erguiam imponentemente na elegância das suas linhas castrenses.
Depois a ação mordente do tempo e a ação daninha do homem, reduziram a nada a obra formidável dos Templários (1).
Em 1821 um capitão da tropa, secretário das armas da província, pediu licença para utilizar as pedras da muralha na construção de uma casa.
Ouvida a Câmara, achou bem o pedido, contando que a pedra não fosse tirada dos lanços da muralha em poder dos particulares. Foi o início da derrocada.
Em 1835 a Camara representou ao Governo a conveniência de serem apeados os Arcos das Portas da muralha.
Achou bem o Perfeito da Província e do Ministério da Guerra baixou a portaria de 17 de Julho de 1835, autorizando o apeamento dos arcos das muralhas, utilizando-se a pedra em obras de manifesta utilidade pública.
Em 9 de Março de 1839 outra portaria autorizava a almoeda de parte de pedra do castelo, e em 20 do mesmo mês e ano ainda, outra portaria mandava continuar a almoeda de venda da telha e madeiras do castelo!
(Continua)
O Albicastrense

sábado, novembro 19, 2016

O CASTELO E AS MURALHAS DA TERRA ALBICASTRENSE - (3)

ACHEGAS PARA UMA MONOGRAFIA REGIONAL
“CASTELO BRANCO E O SEU ALFOZ”
(J. RIBEIRO CARDOSO)
 (Continuação)
Em 1245 fez-se no Porto uma escritura de composição entre o Mestre e freires da Ordem do Templo e o Bispo da Garda, sobre direitos episcopais, e nela se estipulou que os templários dariam aquele Prelado, em castelo Branco: (lugar adequado para fazer uma casa para celeiro e habitação para ele, Prelado e sua comitiva).
Et debent in castelo blanco dare et concedere locum competentem Episcopo, in quo possit fecére dominu ad conservandum panem, et res suas, etad pousandum cum suis”.
Os templários deram ao Bispo, no largo que ai está crismado de Luís de Camões, lugar adequado para ele fazer a sua casa de residência e o celeiro dos seus haveres, como na realidade fez.
Só quem for ceguinho de todo é que não dá logo tento que o Arco não foi feito para porta de muralha (1), e não descortina em uma das suas faces sinais certos de residência principesca, identificada pelo chamadoiro do Arco, que desde séculos vem sendo conhecido por Arco do Bispo, que outro não foi senão o da Composição de 1245.
Em frente do celeiro do Bispo, ficava o celeiro da Ordem como faz certo a casa que ainda ai está com a cruz da Ordem incrustada na parede. 
O produto da cobrança do dizimo estava intacto no celeiro da Ordem, incrustado na parede. O produto da colaboração do dizimo estava intacto no celeiro da Ordem e era de lá que saia a quarta parte para o celeiro do bispo, nos termos da escritura de 1245.
Revertendo ao caso das muralhas. Se em 1245 ou pouco depois, o Bispo da Guarda e os Templários edificaram no largo hoje conhecido de Luís de Camões os seus celeiros, é porque os julgavam a coberto de qualquer atrevido golpe de mão, ou mais concretamente, o largo tinha o natural resguardo das muralhas da vila a cobri-los da cobiça de gente de fora parte.
Temos aqui à mão a crónica de Dom Dinis, da autoria de Rui de Pina, em edição recente a reproduzir um códice inédito da Biblioteca Municipal do Porto.
Ora o seu capitulo XXXII está assim rubricado: “Das obras e cousas mais notáveis que El-Rei Dom Dinis fez em sua vida – Com este acrescentamento:
Este Rei em seu tempo fez na Comarca da Beira e Riba Côa estes castelos a saber. Avô, que agora é do Bispo de Coimbra, o Sabugal, Alfaiates, Castelo Rodrigo, Vila Maior, Castelo Bom, Almeida, Castelo Melhor, Castelo Mendo, São Felizes de Galegos, Fez mais Pinhel e o seu Castelo:
(Continua)
                                             O Albicastrense

quinta-feira, novembro 17, 2016

O CASTELO E AS MURALHAS DA TERRA ALBICASTRENSE - (2)

ACHEGAS PARA UMA MONOGRAFIA REGIONAL
 “CASTELO BRANCO E O SEU ALFOZ”
(J. RIBEIRO CARDOSO)

(Continuação)
A porta do Pelame que desapareceu no segundo cerco das muralhas pode bem supor-se que é o Arco ainda hoje existente na praça (hoje de Luís de Camões) e que dá entrada para a rua do Bispo.
Esta asserção não é tão inverosímil como pode parecer á primeira vista. A rua que descendo do castelo perpendicular à rua dos Ferreiros, finda em frente do Postiguinho de Valadares, dos Peleteiros.
A rua dos Peleteiros devia ficar próxima à porta do Pelame, nome que esta a indicar que os peleteiros, curtiam, surravam e arejavam as peles no campo imediato à porta.
Ainda mais: a rua mais próxima do Arco chamava-se Nova, o que indica ter sido a primeira que se formou depois de alargado o perímetro da muralha e em continuação à povoação para o lado do sul.
Por todas estas razões podemos afirmar que a antiga porta do Pelame é o Arco que forma a entrada da rua do Bispo.
Até aqui os dizeres de A. Roxo que merecem reparo para pôr a boiar a verdade sobre este ponto da história citadina. Antes de mais uma singela observação.
Se tivesse sido realidade o tal primeiro cerco de muralhas, por força do subsequente alargamento, era inevitável a demolição dos dois lanços da muralha, ambos saídos do arco existente na praça Luís de Camões.
Um a fechar na porta do Ouro, lá no alto, junto à torre de Santa Maria, fronteira à capela de São Braz.
Outro a fechar no lanço da muralha que descendo da porta de Santiago vem até à barbacã do norte que é, mais palmo menos palmo, no lanço da muralha ainda existente, e que agora dá passagem para o atual Jardim Escola.Ora não consta que até hoje se tenham encontrado vestígios dos alicerces de qualquer dos referidos lanços de muralha.
A suposição de ser o Arco do Bispo a porta do Pelame é pura fantasia de António Roxo, atreito a fazer história por tentativas.
Coloque-se o leitor lá em cima, no castelo, na porta do Ouro facílima de localizar por estar edificada em frente da torre de Santa Maria e ser fecho do lanço de muralha a subir a vertente do Espirito Santo, como se vê no precioso desenho do noroeste da cidade de Duarte Darmas.
Deste miradouro, por cima do casario das ruas do Mercado, dos Cavaleiros e outros da cidade velha, procure com os seus olhinhos a praça de Camões e nela o Arco do Bispo, ligue o Arco com a porta do Ouro e observe que a Rua Nova é uma rua velha com assente forçado a dentro do tal perímetro primitivo de muralhas, fantasiado por A. Roxo.
E já agora não abandone o seu miradouro sem ligar o famoso Arco com a barbacã do norte, para verificar a realidade palpável de os famosos peleteiros poderem exercer a sua atividade industrial em pleno campo, ou seja extramuros, sem necessidade da porta do Pelame, que A. Roxo congeminou.
E ao tempo já existiria com aquele nome a rua dos Peleteiro?
O problema do arruamento forçado dos mesteirais não aflorou ao espírito simplista de A. Roxo, e ainda bem, para lhe não cortar as asas á inocência da porta do Pelame, da sua exclusiva invenção. E a Rua Nova? O chama-douro desta rua não tem nada que ver com a pretensa dança das muralhas.
Segundo o testamento de Rui de Pina, Dom Dinis fez a Rua Nova de Lisboa sem haver mexido nas muralhas da cidade, e um Bispo de Viseu fez a Rua Nova daquela cidade adentro do cerco das suas muralhas.
A nossa Rua Nova também tem a sua história, mas por agora basta fixar que em 1481 o juiz da Covilhã Álvaro Gomes veio a Castelo Branco ajuramentar os novos alcaides Álvaro Martins e João Rodrigues, e o juramento se realizou na domus municipalis, que era ao tempo na rua Nova.
(Continua)
O Albicastrense