quinta-feira, julho 28, 2016

CADERNOS DE CULTURA - "MEDICINA NA BEIRA INTERIOR". (XVIII)

Drama e Escândalo na Igreja de SantaIsabel (1805).

(Continuação)
Assento 43
 - D. Leonor Pereira Pessoa, casada com o sargento-mor José Pessoa Tavares, faleceu com todos os sacramentos e com testamento de mão comum com seu marido, em o qual deixou que se dissessem 2 ofícios e missas até o sétimo dia; faleceu, digo, em 20 de Outubro de 1805 e foi sepultada na igreja da Misericórdia, que serve de presente de freguesia, de que fiz este termo que assinei / O Vig° Manuel Martins Pelejão.
Comentário
No Assento de óbito, acima transladado, não vislumbramos a menor alusão aos sucessos dramáticos ocorridos na igreja de Santa Isabel, a quando da inumação dos restos mortais de D. Leonor Pereira da Siva esposa de José Pessoa Tavares, sargento-mor das ordenanças de Castelo Branco, cavaleiro professo da Ordem de Cristo, fidalgo de cota de armas, (47) negociante de grosso trato e «uma das pessoas mais ricas da província da Beira».
D. Leonor nascera na Covilhã a 18.4.1745 e ali casara, a 11.4.1773, com seu primo José Pessoa Tavares natural do Fundão mas residente na urbe albicastrense, onde veriam pela 1ª vez a luz do dia todos os seus filhos. Ambos descendiam de famílias cristãs-novas, mas seguiam e praticava mês escrupulosamente a religião católica, vivendo com «muito asseio e luzimento» na sua casada Rua do Pina e tratando-se à lei da nobreza com escudeiros, lacaios, seges, cavalos, etc.
Acometida de prolongada e dolorosa enfermidade, D. Leonor passou os últimos dias da sua vida em estado bastante crítico, quási moribunda... No decurso deste período, a 17.10.1805, o R. do P. Francisco José Robalo Moutoso presbítero secular, bacharel em Cânones pela Universidade de Coimbra e comissário do Santo Ofício, visitara a enferma como fim de prestar-lhe algumas consolações espirituais mas o marido opusera-se energicamente a tal propósito, increpando-o para que não molestasse a mulher...
Pouco depois, na madrugada de 20 de Outubro, D. Leonor expirava após lhe haverem sido administrados todos os sacramentos pelo P. António da Maia Nogueira, cura da Sé. Nesse mesmo dia, pelas 10 horas da manhã, saiu da Rua do Pina o préstito fúnebre com os seus restos mortais, nele se incorporando além de familiares, amigos e dependentes, as figuras mais representativas da cidade e muito povo. Encaminhou-se o cortejo para a igreja de Santa Isabel, em cujo edifício estava ainda instalada a primitiva Misericórdia e que então servia de paroquial da freguesia da Sé Catedral, em obras de restauro...
Ali tiveram lugar as cerimónias litúrgicas habituais e, depois de encomendada a alma da falecida, lançou-se cal e vinagre sobre o corpo e lhe puseram por cima uma grande toalha, que a cobria dos pés à cabeça. Finalmente, fecharam o caixão, cuja chave ficou na posse de José Tudela de Castilho, fidalgo da Casa Real e a quem tinha sido confiada a sua guarda... Entretanto, o coveiro Simão Rodrigues Serra procurou o P. Francisco José Robalo para lhe comunicar as suas apreensões quanto ao enterramento, pois a colocação da referida toalha sobre o cadáver levantara certo sussurro dos que nesse acto julgavam descobrir um rito judaico...
O nosso Comissário atuou imediatamente. Na companhia do coveiro subiu a nave central do templo até chegar à uma e, invocando o nome do Santo Oficio, perguntou a Manuel de Sousa Cardoso, escudeiro de José Pessoa Tavares, que mortalha levava a sua senhora.  Perante a resposta de “que ia amortalhada como as mais”, disse que queria examinar a toalha para ver se era de pano de linho novo e cru. E, efetivamente, depois de a apalpar, tirou-a para fora mas verificando a falsidade da denúncia, pois tratava-se de uma velha toalha de Bretanha com folhos e rendas e enxovalhada pelo uso, arremessou-a ao chão. Então, mandou prosseguir a cerimónia e retirando-se pelo mesmo caminho, foi comentando para a assistência que “esta gente sempre queria levar roupa de linho...”
Todas estas diligências provocaram um certo borborinho entre as 300 pessoas que enchiam o templo, varrido por um sopro de drama e escândalo: uns, sentindo-se ofendidos e amargurados com a atitude do Comissário; outros, procurando conhecer melhor a razão do seu procedimento; quiçá alguns encantados pela vergonha infligida a uma família rica e poderosa, por quem nutriam inveja e ressentimento...
Três dias depois deste incidente, a 23 de Outubro, José Pessoa. Tavares apresentava ao juiz de fora de Castelo Branco um requerimento dirigido a S.A.R., o Príncipe Regente D. João, expondo o sucedido e pedindo o castigo do P. Francisco José Robalo Moutoso pelo “ato infame e injurioso com que pretendera denegrir a sua reputação”.
Como o acusado era Familiar do Santo Oficio, todo o processo acabou por correr sob a alçada do respetivo Conselho Geral. Para apuramento do caso foram ouvidas diversas testemunhas e vistas as justificações apresentadas por ambas as partes. Através delas verificou-se, entre outras coisas, o seguinte:

- Atendendo a semelhante aviso do coveiro, o P. Francisco José Robalo já alguns anos antes fizera despir na igreja uma filha de Estevão Soares Franco, Cristão-novo, estando também amortalhada para a sepultarem (28.3.1787).
- Ele excedera os seus deveres e jurisdição, agindo contra as disposições expressas nas leis de 25.5.1773 e 15.12.1774 (que, confessou não conhecer) e infringiu ainda o parágrafo 1 do liv. 3, Titº 19 do Regimento.

Por tudo isto, ao pronunciar a sua sentença, em 16.5.1806, o referido Tribunal condena o Comissário a suspensão perpétua do exercício do seu cargo e a 3 anos de degredo para fora de Castelo Branco. (48)
Além do mais, este caso revela-nos como as leis do marquês de Pombal (acima indicadas e abolindo a distinção entre cristãos velhos e cristãos novos, aprova da “limpeza de sangue”, etc.) iriam promover a reforma de mentalidades e constituíram profundo golpe num dos institutos mais sinistros da nossa História: a Inquisição.´
(Continua)
O Albicastrense

terça-feira, julho 26, 2016

NOTAS E DOCUMENTOS PARA A HISTÓRIA DOS JUDEUS E CRISTÃOS-NOVOS DE CASTELO BRANCO - (I)

 POR, MANUEL DA SILVA CASTELO BRANCO
A localização da antiga judiara da terra albicastrense gerou recentemente alguma polémica, contudo, mais que saber onde exatamente ela se situava, talvez interesse mais conhecer a verdadeira história dos Judeus e Cristãos-novos de Castelo Branco.
Por isso, vou postar neste blogue o magnífico trabalho de Manuel da Silva Castelo Branco, artigo publicado em 1964 na revista "Estudos de Castelo Branco". Como o trabalho tem 33 paginas, vou postá-lo em vários postes.
 O Albicastrense

domingo, julho 24, 2016

CADERNOS DE CULTURA - "MEDICINA NA BEIRA INTERIOR". (XVII)

 Um Boticário Albicastrense na Casa de Tormento da Inquisição

(Continuação)
Assento 42  
- Lázaro Rodrigues Pinheiro, natural desta vila e marido de Clara Henriques, faleceu com todos os sacramentos em os 8 de Abril de 1728. Não fez testamento e foi sepultado em cova de fábrica, de que se fez este Assento que assinei dia, mês e ano «ut supra» / O Vigº Frei Manuel Rodrigues Corugeiro!
Comentário
Lázaro Rodrigues Pinheiro, cujo assento de óbito acabamos de transladar, nasceu em Castelo Branco a 16.9.1659, sendo filho do mercador João Nunes Viseu e de sua mulher D. Ana Rodrigues, ambos cristãos-novos. Naquela vila estudou Gramática (Latim); depois e durante 4 anos, aprendeu com mestres aprovados a arte de boticário; e, examinado nesta ciência de acordo com o Regimento, foi considerado apto e suficiente pelo que se lhe passou a respectiva carta régia (Lisboa, 13.1.1680). (44) 
Monta botica na terra natal e casa em Alcains, a 3.1.1697, com D. Clara Henriques de Paiva, filha de Francisco Lopes Morão e D. Leonor de Paiva; e dela houve vários filhos, o primeiro dos quais nasceu em Castelo Branco a 27.8.1698 e teve o nome do avô paterno (João Nunes Viseu).
Ora, embora baptizado e freguês habitual da igreja de S. Miguel, o nosso boticário acaba por apartar-seda Fé Católica e passa a professar a chamada Lei de Moisés, seguida havia séculos pelos seus antepassados judeus.
No nosso país, tal facto era então objecto de graves penas (até a de morte), pelo que Lázaro Rodrigues Pinheiro começa a ter uma vida dupla... Assim, aparentemente, continua a ser católico praticante, indo à igreja e confessando-se mas, no seu íntimo, não acreditava no Mistério da Santissima Trindade nem tinha Cristo por Deus verdadeiro e como o Messias prometido; antes, esperava ainda por Ele «e só acreditava no Deus dos Céus, a quem se encomendava com a oração do Padre Nosso, mas não dizendo Jesus no fim...» (45).
Clandestinamente, comunicava com outras pessoas da mesma nação, às quais se declarava por judeu; e, na intimidade da sua casa, ele e a família praticavam os ritos e cerimónias judaicas, guardando os sábados como se fossem dias santos e jejuando nas festas comemorativas do Dia Grande da Rainha Ester...
Porém, o destino não lhe permitiria manter esta situação por muito tempo. Em finais de 1710, alguns familiares são presos pela Inquisição e ele, receando ser descoberto através dos seus testemunhos aconselha-se com Paulo de Figueiredo de Refoios, comissário do Santo Oficio em Castelo Branco e parte imediatamente para Lisboa, apresentando-se no palácio dos Estaus, ao Rossio, em 5.2.1711...
Inicia-se, assim, o seu processo perante o dito Tribunal, em cuja Mesa começa a confessar, a 14.2.1711, denunciando parentes e conhecidos pertencentes a diversos ramos de cristãos-novos: Moratos, Idanhas, Viseus, Penteados, Aires, Nunes, Sordos, Cunhas, Paivas, etc. 
Do inventário feito aos seus bens, a 26.3.1711, consta possuir em Castelo Branco uma vinha no Valedo Romeiro, que comprara por 150000 réis; mais outro pedaço de vinha, no sítio da Ribeira, que lhe custara 15 a 16000 réis; e a botica, avaliada em cerca de 50 a 60000 réis.
A 11.2.1711, volta à Mesa onde confessa mais culpas mas o Tribunal não se dá por satisfeito pois o réu, involuntária ou propositadamente, não incriminara algumas pessoas já comprometidas noutros processos e com os quais comungara a sua crença...
Por tal motivo, é admoestado e advertido das faltas e diminuições do seu testemunho, sendo entregue ao juízo ordinário e entrando nos cárceres secretos da Inquisição, a 18.3.1711.
A 12.6.1711, produz mais confissão mas, considerada insuficiente e não totalmente verdadeira, é acusado de heresia e apostasia e condenado à prova do tormento 20.6.1711.
Este realiza-se 6 dias depois, pelas 9 horas da manhã e perante o inquisidor Manuel da Cunha Pinheiro (pelo ordinário), os deputados Frei Miguel Barbosa e Marfim Monteiro de Azevedo, o notário, médico e cirurgião e outros oficiais da Inquisição. O notário lê-lhe a sentença e, mais uma vez, insiste em que diga toda a verdade, «para descargo da consciência e salvação da sua alma, pois só assim evitaria os trabalhos e perigos a que iria se submetido», advertindo-o «com muita caridade, de quase naquela diligência morresse, quebrasse algum membro ou perdesse qualquer sentido, a culpa seria unicamente dele e não dos senhores inquisidores e mais ministros do Santo Oficio, que haviam feito justiça conforme o merecimento da sua causa». (45)
O réu responde com o silêncio a tão insidiosa e hipócrita argumentação, pelo que é amarrado ao potro e sofre os primeiros 3 tratos da polé. Desesperado com as dores, grita e clama por audiência, onde denuncia outros praticantes, entre os quais o Dr. Manuel Mendes Monforte (tio de sua mulher e médico no Brasil), a própria mulher e o filho mais velho, apenas com 13 anos. Tudo isto não satisfaz ainda os inquisidores, sendo levado de novo à tortura e desta vez, submetido a «tratamento» completo.
Não podendo suportar mais o sofrimento, pede misericórdia e perdão, «com mostras de arrependimento». A 30.6.1711, a Mesa do Santo Tribunal revê pela 4ª vez o seu processo e acaba por condená-lo a cárcere e hábito penitencial e a abjurar das culpas em Auto de Fé, celebrado no Rossio a 26.7.1711, com a presença d’El-Rei, altas individualidades e muito povo. Finalmente, Lázaro Rodrigues Pinheiro é libertado a 6.8.1711 e regressa a Castelo Branco, retomando o seu trabalho na botica. 
Mas, pouco tempo depois, a 16.10.1711, a mulher e o filho mais velho apresentam-se voluntariamente nos Paços da Inquisição em Lisboa (os Estaus), a fim de confessar também as suas culpas, saindo reconciliados pelo mesmo Tribunal, a 7 e 27.10.1711, respectivamente. (46) 
O casal irá ter mais filhos e para eles o pesadelo terminou... Mas não para a sua geração. Ora, processos semelhantes ao que acabei de descrever foram levantados a muitos cristãos-novos a albicastrenses, em especial no decurso dos séculos XVII e XVlll; e alguns deles pagariam na fogueira um pesado tributo pelas suas convicções...
(Continua)
O Albicastrense

terça-feira, julho 19, 2016

DEZ ANOS DEPOIS... (I)

DEZ ANOS É MUITO TEMPO...
Diz o poeta que dez anos é muito tempo! Como também assim penso,  a partir de hoje vou   lembrar aqui alguns dos postes publicados nesse blogue há precisamente dez anos.    
MEIO SÉCULO A CANTAR E A TOCAR AS MÚSICAS DA NOSSA BEIRA BAIXA.
A Orquestra Típica Albicastrense conta já com 50 anos a dar-nos musica.
As comemorações estão a decorrer durante o mês de Julho na cidade de Castelo Branco. 
Mais que saudar e festejar meio século de vida de uma instituição, interessa recordar todos aqueles que com o seu esforço e dedicação contribuíram e continuam a contribuir para tornar a "nossa" orquestra típica uma das melhores do seu género, em Portugal.
Todos nós de uma ou outra maneira, conhecemos no passado ou presente, alguém que por ali tenha passado. Não sendo eu uma excepção gostaria de aqui recordar alguém que se fosse vivo, ali estaria ainda hoje de pedra e cal, cantando e encantando todos os albicastrenses. Estou a falar do José Rocha com quem trabalhei na antiga Auto Mecanica da Beira nos finais da década de sessenta. 
A sua dedicação à O.T. A era total! A ele e ao Dr. Ernesto Pinto Lobo (que também tive o privilégio de conhecer), e a muitos e muitos outros que talvez nos estejam a dar musica num qualquer lugar desconhecido, o meu Bem- Haja.                         O Albicastrense

quinta-feira, julho 14, 2016

CADERNOS DE CULTURA - "MEDICINA NA BEIRA INTERIOR". (XVI)

III Parte  
Alguns Episódios da Guerra dos Sete
Anos em Castelo Branco (1762). 

Dois Heróis.
(Continuação)
Assento 36
 - D. Rodrigo José de Torres e Morales, solteiro, da Ordem de Calatrava e marquês de Matallana, tenente das Reais Guardas Espanholas de Infantaria, filho dos Ex. mos Senhores D. Rodrigo Torres, tenente-general da Real Armada, del Consejo e Câmara em o Supremo das Indias e de D. Isabel Ruiz de Ribera Castañeda, faleceu com todos os sacramentos nesta vila e freguesia, quando nela e sua vizinhança se achava o exército de Espanha, a 2 de Outubro de 1762. Foi sepultado no convento de St° António, teve missa e ofício grande do uso da igreja, de que fiz este termo que assinei / O Vig° Frei Filipe Gomes de Santiago
Assento 37
 - Aos 17 dias do mês de Outubro de 1762, faleceu sacramentado D. José Marimon, cirurgião do Regimento de Dragões de Numância do reino de Castela e natural de Mallorca, casado com D. Mariana e moradores na Catalunha. Foi sepultado dentro da igreja e acompanhado com o coro, de que fiz este assento / O Vig° Frei Martinho Gomes Aires. A margem direita: - Neste tempo entrou o exército d’ El-Rei Católico nesta vila, que foi em Domingo, 19 de Setembro do mencionado ano, e nela assistiu até ao Dia de Finados (2 de Novembro).
Assento 38
 - António Lopes Carapetoso, desta vila e casado com Maria Gomes Bicho, faleceu a 25 de Outubro de 1762 com os sacramentos da confissão e sagrado viático, pois os inimigos castelhanos (que se achavam nesta vila e a arruinaram e deixaram em estado miserável) o criminaram de espia do nosso exército e o mandaram enforcar na forca que levantaram na Devesa da mesma vila.
E assim morreu, no sobredito dia do ano de 1762 e a favor da sua Pátria, com boa conformidade e muito cuidadoso da sua salvação, de sorte que me deixou muito consolado pela singular paciência com que se dispôs para semelhante morte. Deixou 25 missas pela sua alma e 5 pela de seu pai e 5 pela de sua mãe Foi sepultado na Colegiada de S. Miguel (de que era freguês) em sepultura de fábrica e teve missa, de que fiz este termo que assinei / O Vig° Frei Filipe Gomes de Santiago.
Assento 39
 - João Hamilton, inglês e tenente do Regimento 3° das tropas inglesas, faleceu sem sacramentos, a 25.12.1762; e foi sepultado na Colegiada por provar-se diante do Rdo. Arcipreste que era católico. Teve missa de presente, de que fiz este termo que assinei/ O Vig° Frei Filipe Gomes de Santiago.
Assento 40
- D. Tomás de Noronha, solteiro e filho do Ex. mo Senhor D. Marcos de Noronha, conde dos Arcos e general desta província, faleceu sem testamento e com todos os sacramentos, a 30.12.1762. 
Foi sepultado no convento de Santo António e teve missa, de que fiz este termo que assinei / O Vig° Frei Filipe Gomes de Santiago.
Assento 41
- O Doutor José Gomes Nunes, médico partidista, filho de Sebastião Gomes e de Catarina Nunes, primo-irmão do vigário que este escreve, faleceu com todos os sacramentos, a 17.3.1763. Fez uma disposição pia em que deixou 130 missas e foi sepultado na Colegiada de S. Miguel, aonde teve missa de presente e o ofício de 9 lições, de que fiz este assento que assinei / O Vig° Frei Filipe Gomes de Santiago.
Comentário
Os registos a cima transladados, dão-nos uma ligeiríssima imagem do sucedido em Castelo Branco a quando da ocupação pelo exército espanhol sob o comando do conde de Aranda, em meados de Setembro de 1762, já na fase final da Guerra dos Sete Anos... A maioria da população albicastrense refugiara-se nos montes vizinhos, temendo a rapinagem e violência dos soldados e estes, à medida que chegavam, distribuíram-se por toda a parte: casas, hospitais, igrejas, conventos, praças, fazendas, e áreas suburbanas, procurando alojamento e mantimentos.
Depois, grande parte do contingente espanhol saiu da vila tentando sem resultado forçar a passagem para Lisboa, que lhes era barrada pelo exército anglo-luso do conde de Lippe. Assim, impedido de avançar, acossados por todos os lados e enfrentando um tempo frio e chuvoso, o conde de Aranda foi obrigado a recolher a Castelo Branco, donde retirou em ordem para o seu país e levando consigo alguns reféns. As últimas forças invasoras saíram da vila a 2 de Novembro, deixando-a empestada e repleta de feridos, destroços e imundície. Muitos doentes acabariam por sucumbir ao contágio, como aconteceu ao filho do conde de Arcos (Assento 40) e ao médico municipal Dr. José Gomes Nunes (Assento 41). Este médico nasceu em Castelo Branco a 8.11.1722, sendo filho de Sebastião Gomes e D. Catarina Nunes.
Frequentou a Universidade de Coimbra, onde se matriculou em Instituta a 1.10.1741 e pela sua aplicação e qualidades obteve a mercê de partidista de Sua Majestades. Ali tirou o bacharelato em Artes a 3.4.1742 e licenciatura em Filosofia e Medicina, respetivamente, a 14.3.1748 e 24.5.1751.
Seguidamente, estabeleceu-se na terra natal, sendo confirmado num dos partidos de médico municipal com 40000 rei de ordenado, por carta régia de 8.1.1755. (42) No exercício deste cargo acompanha dedicadamente os seus doentes durante a ocupação e, sofrendo o contágio da pestilência, dela viria a falecer como um herói, a 17.3.1763.O Assento 38 revela-nos uma outra figura singular, que sacrifica também a vida em prol da sua “terra. Trata-se de António Lopes Carapetoso, nascido em Castelo Branco a 20.10.1719, filho de António Lopes e D. Maria Gonçalves, e casado com D. Maria Gomes Bicho da qual houve geração. Acusado de espia do nosso exército, submete-se dignamente à pena que lhe foi imposta pelo inimigo. Assim, enquanto na Devesa da vila se levanta apressadamente a forca, António Lopes Carapetoso prepara-se para enfrentar a morte com as derradeiras armas de que podia dispor para salvação da sua alma... E na cinzenta madrugada de 25.10.1762, o seu corpo rígido e mudo ficou a balançar na Devesa, não como um exemplo vergonhoso mas qual estandarte cintilante e clamoroso!...
Cerca de 4 anos depois, a 0.12.1766, Frei Filipe Gomes de Santiago vigário da igreja de S. Miguel escreve uma relação pormenorizada do que havia presenciado durante a ocupação de Castelo Branco, a qual passamos a transcrever:
-”Em 18 de Setembro de 1762, pelas 2 horas da tarde, entraram nesta vila os primeiros castelhanos; e logo vieram entrando 3 Regimentos de cavalaria e infantaria, que se abarracaram na Devesa desta mesma vila e nos chãos detrás desta igreja de S. Miguel.
E, dali a 2 dias, entrou todo o exército (que se julgou seria de 40000 homens pouco mais ou menos), foi passando pela Devesa e saindo para a Pipa, Granja e para cima, para a Líria, aonde estaria 15 dias pouco mais ou menos. Ocuparam as casas desta vila grande parte dos oficiais; e o general-chefe conde de Aranda o palácio de Sua Excelência (o Paço do Bispo); e nesta minha casa passal da igreja esteve um primo do mesmo conde, o conde de Ricta, ambos de Saragoça do reino de Aragão. 
Os vivandeiros do exército, que seriam 10000 pessoas, ocuparam com suas bestas todas as fazendas, a que todos deram grande prejuízo, porque logo entraram a desarmar todas as vinhas, latadas e portas, queimando muita madeira delas e das casas (no mais das fazendas não fizeram agora grande dano).
E ocuparam com os doentes, que eram muitos e depois da saída cresceram em maior número, os conventos de Santo Agostinho dos religiosos Gracianos, de Santo António dos religiosos Capuchos, igreja e hospitais da Misericórdia, casas do capitão-mor e outras.
Ocuparam a igreja de S. João com a artilharia e munições dos franceses. S. Pedro, S. Marcos, Espirito Santo, capela da Porta da vila e outras muitas casas se ocuparam com trigos e cevadas, que conduziram em grande número; e tanto que duas vezes fui notificado, para mudar o Santíssimo Sacramento para outra parte, para poderem encher a igreja do muito pão que tinha na Devesa sem haver aonde o recolhessem.
Porém não tiveram efeito as notificações, porque na saída do exército permitiu a
Senhora da Conceição e S. Miguel ficasse Governador desta vila um coronel irlandês chamado D. José, cuja mulher disseram era parente de S. Francisco de Sales, e este ficou nestas minhas casas, (aonde eu com mais dois irmãos me conservei), e ele foi o padrinho que tive para não despejar a igreja, dando conta ao conde de Aranda que estava nas Sarzedas.
 E concorreu também ser a igreja a casa da oração, aonde se diziam muitas missas tanto pelos R. dos Padres que ficaram como por mais de 30 capelães do exército, cuja fidalguia e soldadesca concorria a ela em todo dia , e ser a igreja muito estimada e louvada por todos pois se achava muito asseada e armada com a sua armação de tafetá encarnado, da mesma forma que tinha servido na festa da Senhora da Conceição, em Setembro; e, nela, sendo tão grande o concurso nada faltou, de sorte que não seria preciso esconder algumas peças de prata pelas cimalhas da tribuna. As capelas do Senhor da Piedade e da Senhora da Piedade, em cujo alpendre fizeram seu paredão de pedra, ficaram servindo de Corpos de Guarda; e o mesmo a igreja de Santa Maria do Castelo, aonde parece chegaram a meter alguns cavalos e encheram de palha para dormirem os que nela se recolhiam, com mágoa do seu vigário que também ficou nesta vila, Frei Martinho Gomes Aires, também natural desta vila.
 E ou destas imundícies ou de doentes ou de pão todas as igrejas foram cheias. Só pela graça de Deus e da Senhora da Conceição, a igreja de S. Miguel não ficou apestada como todas as mais, antes se conservou com muito asseio e sempre as chaves estiveram em poder do seu tesoureiro, o P. Manuel Vaz Touro do Amaral, que não me ajudou pouco na administração do Sagrado Viático e Extrema-unção, cujo trabalho era continuado desde manhã até à noite; e, não sendo tanta a caridade dos capelães em confessarem os doentes, certamente morriam pelos muitos que vinham de Vila Velha de Ródão e Sarzedas, às carradas; parece-me não chegariam os mortos que se sepultaram a 150, de que não fiz relação pelo muito trabalho e aflição que se padece em semelhantes tempos, que só quem o experimentar o pode vir a conhecer.
No fim do pouco efeito que acharam os castelhanos em Vila Velha, Sarzedas e Alvito, recolheram todos a esta vila. Como era no mês de Outubro, foi continuada a chuva e muito frio, de sorte que obrigou a recolherem-se a maior parte dentro das casas desta vila e, pela muita chuva e frio, entraram acarretar lenha de oliveira, cortando muitas nas vizinhanças e subúrbios da vila. E neste espaço, que seria de 15 dias, é que fizeram o maior destroço e perdas.
E no dia 2 de Novembro saiu o resto de todo o exército, tendo levantado toda a grande maioria do trem, peão e artilharia nos dias antecedentes, fazendo o seu caminho para Alcântara com bastante medo e tendo tentado passar o Tejo em Malpica para Ferreira, o que não puderam à força da boa diligência conseguir. Não foi pequeno susto que causaram em aqueles que ficaram nesta vila, receando ser levados para Castela como foram muitos destas vizinhanças, eclesiásticos e seculares, de que muito poucos voltaram a este reino. A maior parte da gente desta vila se retiraram para as terras da Serra, aonde não padeceram pouco, sem que porém se possa comparar aos sustos e apertos do coração que padecemos, os que ficámos, que é indizível.
 Saindo o exército, ficou a vila quási apestada, que não morreu pouca gente; e a não vir o conde dos Arcos, que com grande diligência mandou enterrar as muitas bestas que havia mortas e já corruptas por toda a vizinhança da vila, além do despejo que se fez das muitas imundícies que havia nas casas e ruas, certamente seria ainda maior a mortandade. E, nem assim pôde escapar da morte um filho do mesmo conde e, dos dois médicos, um ainda escapou como por milagre e o outro que era meu primo, o Dr. José Gomes Nunes, com efeito morreu no contágio que se seguiu à saída do inimigo. Não especifico aqui as muitas lidas e apertos que se padeceram, de que não coube pequena parte ao pároco desta igreja, porque o que for quando suceda outra (o que Deus pela sua Misericórdia não permita) então se saberá...».
(Continua)
                                            O ALBICASTRENSE

domingo, julho 10, 2016

CADERNOS DE CULTURA - "MEDICINA NA BEIRA INTERIOR". (XV)

 A Guerra da Sucessão de Espanha (1704)
                        II Parte.                            
(Continuação)
Assento 30
Se fecharam as portas de Santiago per mandado do Senhor marquês das Minas, general e governador das Armas da Província.
- Entrou o inimigo francês e castelhano a conquistar esta vila Dia do Corpo de Deus, que foi em 22.5.1704, e rendeu-a no dia seguinte. Esteve nela 40 dias, tempo bastante para a deixar assolada (como deixou), a igreja de Santa Maria queimada, o castelo e muro arruinados.
- Publicaram-se as pazes nesta vila, entre o senhor rei de Portugal D. João V e o senhor rei de Castela D. Filipe V, a 6.5.1715, governando a Igreja o S. P. Clemente XI e o Bispado o ex. mo Senhor João de Mendonça que, a 11 do dito mês, benzeu o sítio e pôs a fundamental pedra no Recolhimento que novamente e regeu na dita vila, acompanhando-o o eclesiástico, nobreza e plebe da terra, (Letra de Frei António Gomes Assores, Vig° de Stª Maria).
Assento 31
- Os baptizados, que se seguem, o foram na igreja de S. Miguel por me queimarem os hereges franceses e um ladrão castelhano a igreja, deixando-ma incapaz de se baptizar nela. O Vig° Frei António Gomes Assores.
Assento 32
- No ano de 1704, governando a Igreja de Deus o S. Papa Clemente XI, o reino D. Pedro II, a província o marquês das Minas, o bispado D. Rodrigo de Moura Teles (eleito já arcebispo primaz), se fechou as portas desta vila, a 24 de Janeiro. O Vig° Frei António Gomes Assores.
- Mas também, a 7 de Julho seguinte, se abriu a de S. Tiago e fui eu o primeiro que, com a nossa mão sagrada, a comecei a abrir. O Vig° Frei António Gomes Assores.
Assento 33
A 22. 5. 1704, dia em que caiu 5ª feira do Corpo de Deus, entrou nesta vila o inimigo francês e castelhano deixando-a roubada e por fim, em paga de 40 dias que aqui moraram com alcatrão me puseram fogo à Igreja. Deus vingue tão grande desacato! O Vig° Frei António Gomes Assores.
Assento 34
- Em Junho de 1704,matou o inimigo a Pedro Simão, do Cebolal, monte desta freguesia de Santa Maria. Foi sepultado na igreja do dito monte e teve oficio, de que fiz este termo que assinei. O Vig° Frei António Gomes Assores.
Assento 35
- A 22. 6. 1704, faleceu Catarina Magro, solteira desta vila e freguesia, não fez testamento. Foi sepultada em Cambas, onde andava (como os demais desta vila) fugida por amor do inimigo; e, no dito lugar de Campas lhe fez a R. do Prior meio ofício. E, por verdade, fiz este termo que assinei. O Vig° Frei António Gomes Assores.
Comentário
Nos seis Assentos acima transladados, o vigário de Santa Maria, Frei António Gomes Assores, dá-nos algumas notícias sobre os acontecimentos vividos em Castelo Branco (e em particular na sua freguesia), aquando da ocupação da vila pelas tropas espanhola se francesas que apoiavam Filipe, duque de Anjou (e já aclamado Filipe V), na sucessão ao trono de Espanha.
Portugal acabara por aceitar o outro candidato - Carlos, arquiduque de Áustria - proposto pela Inglaterra... Assim, em Maio de 1704, um poderoso exército de Filipe V, reforçado com um contingente francês do comando de Berwick, penetra no país pela Beira e apodera-se de Salvaterra do Extremo, Segura, Monsanto e Castelo Branco. Do sucedido então na transcrever seguidamente: - “Passou o exército inimigo a invadir a vila de Castelo Branco, a maior de toda aquela província”.
Achava-se esta vila com pouca ou nenhuma guarnição de soldados e desamparada de muita parte dos paisanos, porque muitos e os de maior suposição se tinham ausentado com suas famílias, justamente atemorizados do poder castelhano e das notícias das entradas que tinha feito nas terras rendidas.
E somente se acharam em Castelo Branco 80 soldados inglese sou holandeses, que se retiraram ao castelo; ficou avila defendida com os poucos paisanos que nela ficaram e estes sem cabo nem governador, porque todos tinham despejado a terra. Com tão pouca defensa e com uns muros antigos e menos munições, acharam os castelhanos a vila de Castelo Branco, aonde chegaram com o exército Dia do Corpo de Deus, 22 de Maio do dito ano de 1704.
De tarde, lançaram cordão à vila e assestaram duas peças de artilharia aos muros, as quais na noite do dia que chegaram, puseram dentro da igreja de S. Miguel, paróquia da dita vila (fora dos muros e à distância de um tiro de espingarda) e saíam os tiros das peças pelas portas da dita igreja, porém sem dano (ou pouco) dos muros.
 Resistiu a praça 24 horas e, como o povo se viu com tão pouca defensa, lançaram bandeiras de paz e fizeram chamada, de que resultou a entrega da praça ou entrarem logo os franceses dentro da vila, saqueando as casas e o que podiam. E em poucas horas se rendeu também o castelo, cuja guarnição e governador foram prisioneiros para Castela, ficando na vila alguns paisanos com permissão dos castelhanos que, depois da vila entrada, moderaram muito a fúria dos franceses para não prosseguirem o roubo dos paisanos já rendidos” (40).
O marquês das Minas, reforçado com tropas do Minho e de Trás-os-Montes, sai de Almeida e recupera sucessivamente Segura, Idanha, Zebreira, Ladoeiro, Castelo Branco, Rodão, etc. Berwick, vendo-se ameaçado pelas tropas do marquês da Minas, abandona Portalegre e retira para Espanha. Dura a luta até 1712, ano em que no dia 7 de Novembro se faz o armistício entre Portugal e Espanha.
(Continua)
                                              O ALBICASTRENSE